domingo, 16 de março de 2014

Gaivota do Mar de

                 

                  Eu sinto como o fluxo das águas correntes de um rio e sigo seguindo o ímpeto da correnteza como boia na praia, deixando-me ser guiado pela própria natureza, experimentando todas as sensações que me são propostas no caminho, uma absorção de mim em mim.
                Convido-te, então, a participar da minha cachoeira e aproveitar a vista na queda, mas tu és manancial e me propões as mais jubilosas e grandiosas sensações junto ao deleite do teu colo, porém tens medo da minha sede e me convida devagarinho, tropeçante e vacilosa, com o olhar de quem quer e a língua de quem pestaneja, porque tu não se deixas entrar no fluxo e deixa-se levar pelo conflito, a confusão e as causas banais.
                Um espírito tão bonito, mas cansado de tanta luta, de tantos olhares, de tanto sangue e da sujeira dos dizeres alheios, deixe-me limpar as suas asas e deite-se vagarosamente, deite-se livremente, deite-se facilmente, mas deite-se em mim. Vá para além da calma e do horror, além da alma e da dor, tão e tão e tão além do amor e do pavor, então siga o fluxo e se liberte correndo com o mais intenso dos sentimentos de plenitude, correndo com o mundo, as pessoas, a cultura e a incompletude que sempre existirá em todo canto, corra e não tenha remorso do que fica para trás, arie-se e dance comigo, seja na avenida duque de caxias, ao som de Beatles encarando os olhos ou em um quartinho no Meireles.
                E eu te pergunto, com o tom mais ingênuo das perguntas, por que tu insistes em fincar os teus pés nos espinhos quando tem asas? Ponha-se a voar nesse céu, a pousar nesse mar, não em voo vadio e sem destino como perdido na imensidão, porém com o compromisso de se desprender dos significados fantasmagóricos que damos a tudo para enfim conseguir aceitar e compreender a beleza das coisas por elas mesmas.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Encontros e Desencontros





E então você abre os olhos ainda meio assustado com o barulho e com a responsabilidade do compromisso pesando no corpo que reluta com a inércia, mas logo se vê de pé diante de uma luz abafada, um esclarecimento ainda escuro, mas que se aproxima atrevido como um feixe de luz que se espreme em um pequeno espaço entre o telhado... E os dias tem sido assim desde que eu mesmo me atrevi a voar pelo escuro na esperança de achar outra luz norteadora, porém esses dias também me ajudaram a notar que existe uma sombra dentro de mim que eu nunca tinha visto e ainda maior do que a vista pode alcançar, uma sombra tão imensa que cobre todas as grandes certezas, deixando espaço para algumas pequenas e raras, uma jornada infindável a percorrer, guiado apenas por umas luzinhas do tipo meio ingênuas e que tropeçam infinitamente no ar, brincando risonhas entre si como se não ligassem para o grande abismo do desconhecido à sua volta e é lá que eu quero chegar, entende, luz? É lá que eu quero enxergar... E lá só estar livre e me deixar fluir com todas elas, seja com o corpo pesado de uma noite mal dormida, seja com a mente leve de quem olha pra trás e sorri... E se te escrevo todas essas coisas não é mais por um pesado termo em que concordamos em fazer, mas com a suavidade do eterno sentimento que o meu peito te dedicou ao se costurar ao teu, entende, minha pequena chama? E essa será uma das poucas cartas não enviadas que te dedicarei na mente sobre a minha viagem ao lado escuro e uma das milhares que eu escreverei só de cabeça pra não perder o hábito de matar a saudade sinestesicamente.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

E se o ontem não existisse?
Então, quem eu seria?
Eu sempre costumo pensar quando olho lá dentro do fundo dos teus olhos
Nos dias que o tempo andou só por andar
Nos dias em que nós fizemos o tempo passar
Nos dias em que o tempo só se arrastava lento e sossegado
...
Eu já perco os meus pés por aí quando eles não andam juntos aos teus
Não é como se fosse uma febre de dependência, eles só adoram o teu calor
E as minhas mãos ficam a vagar no espaço procurando as tuas
Perdidas
Distantes
E a nostalgia me sufoca com o gostinho de ansiedade que percorre meu corpo todo
Tu aqui
Eu ali
E não nos contemos mais esperando o momento de ficarmos juntos
E nos dias de hoje, tudo o que eu preciso é da tua presença e essa tua voz diabética
...
As vezes tremo de medo quando o teu sentimento me invade de uma maneira tão profunda e intensa que dá vontade de correr
Mas passa quando me lembro que tu é tu e tu nunca vai sair dali
Nem quando faltar luz
Nem quando faltar sombra
Nem quando faltar fogo
Água
Natureza
Gelo
Eletricidade
Nem quando faltar nada
E é nisso que eu vivo todos os dias
...
Tudo é muito pouco pra dizer, mas eu tento do mesmo jeito
As palavras saem, mas a imagem permanece na alma
A alma é muito funda nos olhos
E o teu toque é um sopro de alma
E me dá muitos calafrios
É como um susto
As vezes aterrador
As vezes muito doce
Mas sempre tão intenso quanto a tua alma
...
As vezes é preciso sair da sombra e contemplar a luz
Deixar-se preencher, desanuviar
As vezes é preciso sair da luz e dormir na sombra
Deixar-se esconder, hibernar
A permanência em cada estado é dolorosa
Mas sempre é preciso amar.