Eu sinto como o fluxo das
águas correntes de um rio e sigo seguindo o ímpeto da correnteza como boia na
praia, deixando-me ser guiado pela própria natureza, experimentando todas as
sensações que me são propostas no caminho, uma absorção de mim em mim.
Convido-te, então, a participar da minha cachoeira e
aproveitar a vista na queda, mas tu és manancial e me propões as mais jubilosas
e grandiosas sensações junto ao deleite do teu colo, porém tens medo da minha
sede e me convida devagarinho, tropeçante e vacilosa, com o olhar de quem quer
e a língua de quem pestaneja, porque tu não se deixas entrar no fluxo e
deixa-se levar pelo conflito, a confusão e as causas banais.
Um espírito tão bonito, mas cansado de tanta luta, de
tantos olhares, de tanto sangue e da sujeira dos dizeres alheios, deixe-me
limpar as suas asas e deite-se vagarosamente, deite-se livremente, deite-se
facilmente, mas deite-se em mim. Vá para além da calma e do horror, além da
alma e da dor, tão e tão e tão além do amor e do pavor, então siga o fluxo e se
liberte correndo com o mais intenso dos sentimentos de plenitude, correndo com o
mundo, as pessoas, a cultura e a incompletude que sempre existirá em todo
canto, corra e não tenha remorso do que fica para trás, arie-se e dance comigo,
seja na avenida duque de caxias, ao som de Beatles encarando os olhos ou em um
quartinho no Meireles.
E eu te pergunto, com o tom mais ingênuo das
perguntas, por que tu insistes em fincar os teus pés nos espinhos quando tem
asas? Ponha-se a voar nesse céu, a pousar nesse mar, não em voo vadio e sem
destino como perdido na imensidão, porém com o compromisso de se desprender dos
significados fantasmagóricos que damos a tudo para enfim conseguir aceitar e
compreender a beleza das coisas por elas mesmas.

