terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Encontros e Desencontros





E então você abre os olhos ainda meio assustado com o barulho e com a responsabilidade do compromisso pesando no corpo que reluta com a inércia, mas logo se vê de pé diante de uma luz abafada, um esclarecimento ainda escuro, mas que se aproxima atrevido como um feixe de luz que se espreme em um pequeno espaço entre o telhado... E os dias tem sido assim desde que eu mesmo me atrevi a voar pelo escuro na esperança de achar outra luz norteadora, porém esses dias também me ajudaram a notar que existe uma sombra dentro de mim que eu nunca tinha visto e ainda maior do que a vista pode alcançar, uma sombra tão imensa que cobre todas as grandes certezas, deixando espaço para algumas pequenas e raras, uma jornada infindável a percorrer, guiado apenas por umas luzinhas do tipo meio ingênuas e que tropeçam infinitamente no ar, brincando risonhas entre si como se não ligassem para o grande abismo do desconhecido à sua volta e é lá que eu quero chegar, entende, luz? É lá que eu quero enxergar... E lá só estar livre e me deixar fluir com todas elas, seja com o corpo pesado de uma noite mal dormida, seja com a mente leve de quem olha pra trás e sorri... E se te escrevo todas essas coisas não é mais por um pesado termo em que concordamos em fazer, mas com a suavidade do eterno sentimento que o meu peito te dedicou ao se costurar ao teu, entende, minha pequena chama? E essa será uma das poucas cartas não enviadas que te dedicarei na mente sobre a minha viagem ao lado escuro e uma das milhares que eu escreverei só de cabeça pra não perder o hábito de matar a saudade sinestesicamente.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

E se o ontem não existisse?
Então, quem eu seria?
Eu sempre costumo pensar quando olho lá dentro do fundo dos teus olhos
Nos dias que o tempo andou só por andar
Nos dias em que nós fizemos o tempo passar
Nos dias em que o tempo só se arrastava lento e sossegado
...
Eu já perco os meus pés por aí quando eles não andam juntos aos teus
Não é como se fosse uma febre de dependência, eles só adoram o teu calor
E as minhas mãos ficam a vagar no espaço procurando as tuas
Perdidas
Distantes
E a nostalgia me sufoca com o gostinho de ansiedade que percorre meu corpo todo
Tu aqui
Eu ali
E não nos contemos mais esperando o momento de ficarmos juntos
E nos dias de hoje, tudo o que eu preciso é da tua presença e essa tua voz diabética
...
As vezes tremo de medo quando o teu sentimento me invade de uma maneira tão profunda e intensa que dá vontade de correr
Mas passa quando me lembro que tu é tu e tu nunca vai sair dali
Nem quando faltar luz
Nem quando faltar sombra
Nem quando faltar fogo
Água
Natureza
Gelo
Eletricidade
Nem quando faltar nada
E é nisso que eu vivo todos os dias
...
Tudo é muito pouco pra dizer, mas eu tento do mesmo jeito
As palavras saem, mas a imagem permanece na alma
A alma é muito funda nos olhos
E o teu toque é um sopro de alma
E me dá muitos calafrios
É como um susto
As vezes aterrador
As vezes muito doce
Mas sempre tão intenso quanto a tua alma
...
As vezes é preciso sair da sombra e contemplar a luz
Deixar-se preencher, desanuviar
As vezes é preciso sair da luz e dormir na sombra
Deixar-se esconder, hibernar
A permanência em cada estado é dolorosa
Mas sempre é preciso amar.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

o garoto espacial





Estou a tatear essa densas paredes do meu quarto fúnebre, vendo uma densa cadeira amórfica pregado no teto a desdenhar da minha agonia espalhafatosa, respirando a porra de um ar venenoso que entope meus pulmões do movimento espiralar da queda da merda e de um chorume, como se tivesse afundado nos lençóis ilusórios da minha cama para ser afogado em um mictório de estrelas do rock, tudo morto, e as tumbas dos meus ancestrais cadavéricos ficam a zombizar na minha cabeça, os fantasmas surgem e eu não fujo, eles me chamaram para brincar de escravos de loló.

Seringas no chão, alegrias injetadas na veia e passando por todo o meu corpo lentamente. Anoiteci-me, mas tenho medo de não mais acordar. O meu correr é insuficiente. Minhas pernas estão lá, mas não. Os meus olhos enxergam, mas não. Eu vivo, mas a minha existência não me alcança. Eu corro, eu fujo, eu acho que estou voando, mas provavelmente eu esteja só caindo. A primeira e última vez sem chão. O final. Eu quero partir, mas. E se... Não! Eu estou indo para um lugar onde eu nunca. Talvez volte, talvez não. Talvez eu ganhe asas, talvez não, mas estou indo.

Rouxinóis verdes claros estão a contaminar a minha vista, o mundo parece ser tão longe dos meus pés agora... O cheiro de queimado sobe, minha vida se esgotando junto com as cinzas, estou envelhecendo na mesma merda de cidade fadado a morrer essas minhas últimas mortes, morrendo pra nascer igual com o som do mesmo estúpido sino badalando no meio-dia, com o mesmo cheiro de queimado e eu só precisava de um chá de cogumelos...

E no fim da tarde, essas pequenas criaturas ficam me atormentando, perfurando meu estômago, defecando na minha corrente sanguínea, uma tortura de nunca mais. Eu me perco sempre, mas eu consigo. Não tenho sempre, mas ainda. Respiro, mas escapa. Escapa e não mais me pertence, foge de mim, o queimado, a queda, os sinos, pequenas criaturas, eu e nenhuma mais outra poesia.

Eu tenho medo de partir, mas ficar já me é agonizante...