segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Save Our Souls



Dirigi embriagado por causa do efeito do vinho, estava tonto.
Repentinamente, estava eu diante da porta daquele quarto, o número na sua porta era: quinhentos e cinco, estava ofegante por ter subido as escadas rapidamente e o efeito da bebida evaporou junto com o meu suor. Não sabia o que fazia ali, quer dizer... Eu me obrigava a pensar assim.
Encostei meus ouvidos e minhas mãos na porta, em minha imaginação você estaria esperando do outro lado. Temia o resultado de pôr as chaves, hesitei bastante antes de entrar, as lascas de madeira na porta queriam zombar de mim, pois de tanto voltar ali em busca do abrigo dos braços dela, o quarto 505 virara quase um lar, porém não era somente meu, então não era um lar, pois entravam e saíam estranhos com uma grande freqüência, ali era o farol dos naufragados perdidos nas próprias lágrimas na escuridão vasta da madrugada.
Girei lentamente a maçaneta, à medida que empurrava a porta, ela rangia loucamente anunciando a minha entrada.
A sala estava vazia, mas a rudimentar cadeira de balanço continuava com o seu movimento rotineiro, andei um pouco por entre aqueles móveis, sentindo aquela nostalgia ir se dissipando.
Sentei na cadeira de balanço, tirei o pó que a cobria e no criado-mudo, que estava ao lado, repousava um livro chamado “como os homens se comportam”, ri do título e da caricatura de uma mulher soerguendo a sobrancelha na capa, abri na página marcada e a levei ao nariz, tinha cheiro de dinheiro, fiquei com nojo e devolvi o livro ao seu lugar.
Percebi então que o quarto 505 tinha essa magia de me fazer esquecer os motivos pelos quais estava ali, deixando-me absorto e risonho até mesmo com um livro fútil.
Um odor de lasanha se propagando na sala. Puxei o livro novamente e abri na página marcada, li: “faça a comida preferida dele quando vocês brigarem feio, e ele tiver saído de casa batendo muito forte a porta, pois quando ele voltar pedirá, imediatamente, desculpas”. Corri, avidamente, pelo corredor, deparei-me com ela na cozinha e diante do fogão. Ela nunca tinha cozido algo para mim antes. Involuntariamente, brotara um largo sorriso no meu rosto, um mar de água doce desabara diante dos meus olhos. Ela também sorriu e veio serelepe ao meu encontro, passou a mão no meu rosto para enxugá-lo, então me abraçou.
Uma extasiante e voluptuosa sensação. Mais tarde, eu me açoitaria mentalmente por ter vivido o momento que durante toda a minha vida eu havia esperado. Sem dúvidas, eu iria querer passar o resto da minha vida com aquela mulher e já não necessitava mais dizer o quanto eu a amava, pois ela teve a certeza disso quando me tocou.
Ela falou: agora o quarto 505 é o seu lar também.
Descobri que eu sou uma fênix, renasci do pó. 505! 505! 505! Socorro.

4 comentários:

  1. Tem coisas que nem parecem ter sido escritos por você, homem.
    Eu ri muito quando li a palavra "serelepe". Me traz boas lembranças.

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  2. E aquele SOS o seu pedido incessante de socorro, foi absorvido,no momento em que você se derramou e construiu as suas "paredes" ao redor do corpo dela. A vida que você corria espessa e vagarosa dentro dela se foi, e a felicidade,o medo foi coberto por um lençol de esperanças. Era dela o seu amor,era por essa mulher de um manual irritante que você esperava.Era da mão dela que você queria os afagos de rotina, o tremor impalpável acabou. Sentiu-se atraido pelo desconhecido que talvez conhecia por cima e por um olhar ébrio viu-se rastejando para o futuro que o esperava ao lado dela,não era mais uma fruta roída por um verme e os corpos que foi deixando pelo caminho ao longo da vida,agora era apenas passado pois agora você estava salvo,encontrou o 505 podia morrer feliz nos braços dela. ushaushauhsa Desabafei.

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  3. Flávia fez a perfeita interpretação.

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  4. me transportei pra dentro da estória. Muito bom mesmo! (:

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