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domingo, 1 de maio de 2011

O Açoito na Mão

                   


Pecadores são os poetas, que de vasto calo, vão escrever sobre as suas dores, os seus amores... Poeta? Poeta finge, denigre, inflige, mente, inventa, hipnotiza, manipula... Poeta? Poeta sobrevive das suas desgraças mascaradas nas desgraças dos personagens...

                Poeta não exprime, imprime, subjetiva e vai falar de sentimento... Sentimento pra que? Pra preencher o verso, montar as estrofes para ganhar os troféus de aplausos e ganhar um romance, romance? Não, sexo... E, sim, os aplausos, porque poeta que é deveras depressivo, só consegue sobreviver da beleza das suas dores expressas nas rimas dos seus poemas... Não sei fazer rima, não sei montar as linhas com os metros, então não sinto dor?

                Poeta versa as suas ideias pra comprar o pão e pagar os impostos... Não escrevo os meus sentimentos, porque eles não cabem no papel e nem o papel cabe neles, não me contento em uma parte pra representar o todo, porque sempre acaba ideal ou miserável demais. Se escrevo sobre ela, tenho que escrever sobre os meus dias risonhos, enfadonhos, moribundos, porque o que sinto é totalmente mutável e, depois do escrito, eterniza-se como um único sentimento e se torna imutável...

                Pecado! Mentira, porque é parte pelo todo, porque há dias que me sinto depressivo, quase morto, aproximando-se do inerte, o zero absoluto, mas há os dias que a vida sorri pra mim e viver é a experiência mais fantástica que existe...  Então varia, dependendo dos dias que eu faço força ou não para me levantar da cama, também varia nos dias que quem faz a força é ela... Então não se pode escrever sobre o amor falando somente de dor ou felicidade, porque há dias...

                Nos dias que tu alimentas os meus vícios de longo fôlego, meu amor vira luxúria... Nos dias que tu me machucas, o amor vira dor... Nos dias que lutamos pelos sorrisos e rolamos na cama como se fôssemos eternos, o amor permanece amor. E, digo-te, quando permanece amor, vale a pena todos os dias de sangue.

                Isso não se pode escrever no papel, porque isto aqui não é diário de bordo, é poesia, um manual de instruções, ensina-te a me montar pelo todo que é parte do meu eu...

Não sou poeta, sou um amador iniciante, e sempre o serei, que usa as mesmas ferramentas para fins diferentes. Eu não produzo, eu fagocito.

domingo, 3 de abril de 2011

Eyjafjallajökull




Um parafuso que se desprendeu de uma engrenagem que sustentava uma máquina que fornecia eletricidade para a cidade, ia tilintando pelo corredor e trincava o vidro que mantinha aquela sala.

Subitamente, era tudo queda, palavras em gradação, um silêncio ensurdecedor, que precedia uma tragédia cômica. Primeiro a luz, algumas fulguras disformes, algo evaporando, cheiro de enxofre, espere, estou ficando tonto, náusea, vômito, castigo e vírgulas. Armagedon de minhas veias etéreas, transposição metafísica da alma, sorvimento do universo: “Um por todos, todos por um”.

ETÍLICO!

Rouxinóis em lasers verdes, girafas com rinocerontes, planárias! Xiiiiiiiiii. Escuta o som da contemporaneidade? Óh, Clarice, distorceram-te tanto; Óh, Clarisse, você só tinha 14 anos!

Altares de exus, anjos, demônios, divindades, intangíveis no nosso antropomorfismo! Antropomorfos sistemáticos venham cá calcular as minhas sensações lúdicas, satisfaçam-me! Degustem! Devorem-me e absorvam, deem-me tesão, sanguessugas!

Plasmídeos, placentários, zoófilos, enfermos em geral, revolucionem, nós temos uma causa, nosso patrimônio!

Linhas curvas e reconfiguradas que formam o horizonte venham até mim e preencham meu ser, transformem-me em curvas retilíneas paralelas sincronizadas em uníssono pelo meu cardume, escamas, escudos, lanças!

Eu não tenho causas, esse é o problema e não bastam problemas para se obter causas, porque, aliás, estou cheio deles, porém causa nenhuma me convém, impulsa, incendia, o que for, combustão, VULCÃO!

Esparramado no chão com saliva a escorrer misturando-se com secreções nasais e enfim, Escobar, que se junta ao sal marítimo proveniente do mais leitoso cego olhar.

Pele frenética a se comprimir na minha, aperto, belisco, desperto, era um sonho.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Para ler sem pausas

Não me contento mais com minhas veias, quero e desejo ser mais, eu tenho que fazer mais. O caos dominando e a desordem na minha mão, eu quero ser mais, tenho que fazer mais. Um véu que me encobre do mundo e eu querendo rasgá-lo com garras, unha e dentes, quero deixá-lo ferido tanto quanto eu, suas feridas curarão as minhas, um véu que me separa da alma, quero união, quero ir mais fundo.

Esses pensamentos que me percorrem desvairadamente e a dor na minha mão que já não acompanha meu peito, eu quero rasgá-lo e na minha miserabilidade rotineira darei um brado que revigorará um exército, um urro de peito, a primitividade bruta e instintiva que me falta, sairei do controle de mim e de minhas pálpebras tão fatigadas, sou a soma do mundo e não terminarei apenas como um adubo de plantas.

E esse caos que não deseja ordem gritando e sonhando, não pense, só acompanhe a minha mão, tenho que ser mais que linhas, tenho que ser 3D e a entrada terá o seu preço aumentado. Não almejo ordem, almejo ritmo. Mais, MAIS.

Já não quero mais somar, quero multiplicar, daqui a algum tempo será uma progressão em exponencial e a porra do tempo biológico me limita. Tudo que é limítrofe é orgânico, tudo que é orgânico, decompõe-se; abrirei os horizontes, rasgá-lo-ei, como os lusíadas, seguirei velejando em tempestades...

Se for inevitável ser nutriente para verme, farei o possível para que eu seja o mais suculento dos vinhos e ele se embriagará por noites devorando minha carne fumegante, pois mesmo depois da morte, estarei eu irradiando vidas.

Volto no tempo e percorro o espaço, sou a gravidade de tudo que já fui e sou, agora posso distorcer o espaço-tempo e optar por ser buraco negro, apesar de desconfiar de já o ser, é absorver, sugar vida, um poeta morto, que mesmo preferindo a morte, devora a vida...

Então pulsa por ser involuntário, mas, de qualquer jeito, involuntário seria, porque até mesmo os suicidas se matam por querer a vida.

Tudo que escrevo são rascunhos inacabados de algo, porque sou um rascunho, porque tu és rascunho e a vida o longo ensaio de uma peça que nunca se realizará e os fortes sobrevivem, mas o sobreviver é um adiantamento, não evita...

O que não me poupa é o antagonismo, que por ser agonia ou anta, vem me visitar com uma sabedoria inculta, não oculta, exposta e a jorrar pus, sabe como é, aquela história toda de sistema imunológico e corpos estranhos.

Rasgaremos o véu, veremos a destruição do sistema solar, as promessas cumpridas e o apocalipse, culminado com o aniquilamento do nosso planeta, tal qual como o conhecemos, porque, como vulcão, toda destruição tem alguma dose de criação.

E a lua sempre estará a salvo.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Sem título

Dessa vez eu não estou escrevendo como se deve, estou escrevendo de um jeito que está mais para embaralhar ou organizar essas palavras soltas que estão se fazendo e se desmontando na minha cabeça enquanto meu cérebro tenta processá-las, elas vão se perdendo, escapando e não são bem palavras que te escrevo, são sensações, então, dessa vez, não te preocupas se não entenderes algo, estou na mesma situação.

Lembro-me que ia falar de amor, não definição, talvez até algumas frases clichês acompanhadas de superlativos para prolongar as frases de impacto, mas acabei jogando o roteiro fora, agora é improviso. Logo, se tens algo contra pieguices pare de ler agora, vá descansar, existe coisa melhor do que análise de crise emocional; a metalinguagem acaba agora e o próprio texto começa nestas linhas:

Sempre imaginei que (é, eu não tenho ideia de como começar isso, são sensações, não palavras palpáveis) as pessoas sentem ciúmes, porque gostavam muito de alguém e queriam esse alguém só para si, questão egoísta. Parágrafo de vocábulo raso esse, não? Bem, tão raso quanto essa ideia. Tape o seu nariz, feche a boca, vamos mergulhar...

Um relacionamento sempre começa com o corpo, perdoem-me os puritanos iludidos, mas é, daí então se segue para os sentimentos, tão inebriantes e mutantes, porém esse não é o tema agora (erro textual, -4 pontos na redação, certo?), peço perdão por me desfocar do texto, sensações, palavras, ah, tu já sabes.

Retomando: Corpo -> Sentimentos -> Logo após vem os direitos e deveres, porque o relacionamento passa a ser jurídico com ameaça de prisão, solitária e, pior, cadeira elétrica. Então, os ciúmes (quase consigo ver o alívio no teu rosto, ávido por uma narração direta e nutrida), presiguemos... Os ciúmes, diferente do que muitos pensam, vêm pela ausência de amor, ou pela ausência de demonstração de amor, porque causa uma sensação de perda para um dos lados, lado esse que pensa a “amar” (na verdade, exigir) mais o seu cônjuge, que pode até se sentir sufocado por “ser posse” e, o ruim, trás benefício nenhum, pois nem IPTU se paga, enfim... Então a pessoa começa a nutrir algo (não é sentimento) cada vez mais forte, agitado e incontrolável, porque começam as obrigações, vítimas e reféns...

E o amor se torna amor idealizado (lê-se: vai dar-se início à tragédia, até porque amor sem tragédia perde a graciosidade, certo?). O amor idealizado é amar a projeção de uma pessoa que tu criaste para a (o) sua (eu) amada (o), tornando-o outra pessoa, como se mudasse os próprios olhos para deixar de enxergar as imperfeições, passas então a inventar expectativas que nunca serão cumpridas, vem às decepções, as feridas, porém (que lindo) o “amor” se mantém inabalável e, em estado crônico, torna-se amor platônico que nunca vai vir a ser recíproco, porque tu amas o vazio, o inexistente e esse não tem o amor que tu querias para te dares como recompensa.

Amar é (lá vem a definição, depreciável, pois é opinião, não fato, mas quem tem certeza na metafísica?) enxergar (não é ficar cego, não, isso é paixão) tudo de ruim em alguém e mesmo assim amá-lo.

E, por fim, existem as pessoas “imunes” aos sentimentos (os racionais? Não, esses são bem sensitivos), os indiferentes que criam uma casca para se proteger do mundo e isso reflete de maneira muito evidente as suas cicatrizes, mas ainda se fazem de fortes, esses são os mais inseguros, desconfiados e repulsivos (não porque causa repulsão, é porque repulsam), tudo por terem medo, então se enclausuram, mas não sabem que estão, assim, matando-se com as próprias mãos, sufocando-se, um suicídio lento.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Xilindró

Suja tentativa de rima
        Foge-me à mão
Tranca-me em seu refrão

Cantiga tão métrica
        Que foge à regra
Enfadonho bordão

Fados de arame farpado
        Pulsos presos a carruagens
Longínquo latido de cão

Amem      as flores
Amém      , ó deus sol, Amon
Enclausurados em linhas de      parnasão
                                                      
“Tenho que desconstruir”
O contemporâneo bordão...
Prefiro o escarro da tua boca em silêncio
Em mais demasiado pão.

Pão, cão, refrão, bordão, ão de são.
Polaca.

                        U    
        Í                                R
  E                    D                  T
    S                                        S
        C                              N
                         O

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Viúva-Negra



Venho andando, intrepidamente andando, docemente andando... Minto. Simplesmente, ando. Faço isso para alimentar tua fome, leitor.
Mergulharei agora nas teias e fios que me tecem e que teço, pare logo aqui então, se o acaso fez você fraco de vísceras.
Essas palavras intraduzíveis do meu pensamento, molham-no e jamais secam, batem, batem, pingam, espalham-se e escurecem, não querem vir para essas linhas negras, talvez cinzas, porque não sei se o que te escrevo são linhas ou tintas.
Sou uma ponte caminhando ao meu redor, pasmo. Sou uma ponte em duas dimensões, sou ponte. Não, não sou, tu és e não sabe. Costumo ficar aflito com o turbilhão que ora me diz ser tu e ora me diz ser eu, somos intrínsecos e nos confundimos. Crê, infantilmente, estar caminhando sobre a ponte. Estrondo contorcido sonoramente. A ponte é quem caminha sobre ti e a poeira que imagina levantar com os pés, são os excrementos não degustados dela jorrando em ti com puro escárnio. “Ex-carne”.
Então fui ao banheiro. Berrei algumas, enxuguei outras. Preferi ficar admirando aquele espelho, que mais me parecia uma janela, sujo. Não estava vendo minha imagem nele. “Ah, claro... Tenho que ficar de frente para ele, pois ele só enxerga o que está à frente”. Meu reflexo refletido nos meus olhos, que são espelhos, espelhos da alma se refletiam no espelho sujo e nos meus olhos... INFINITO. Pavor. Infinito é nada. Vastidão do ser. Vemos um infinito em todos os olhos. Luziu então a idéia de que o vazio que enxergo não está nos olhos dos outros, está no meu por ser espelho e refletir-se infinitamente no olhar dos outros. Arranco.
Agora cego, é tudo escuro. Bom. No escuro ninguém nota minha janela, que mais me parece espelho, mas está morta. Líquido leitoso nos olhos. Meus olhos brancos, ou seria minha janela? Espelho?, continuam vazios.
Ela assovia nos meus ouvidos e tem um dom, ou maldição, de transformar a mais tranqüila das coisas em sons asfixiantes, que tapam os meus ouvidos, como se fecha uma garganta, só respiro pelos ouvidos e assim morro.
Um, dois, três, vai.
Oh, yeah, baby.
Finco uma faca na minha mão, rasgo o véu do paradigma e meus tecidos, agora a sou, sou faca porque ela está em mim, tenho o poder de penetrar e causar sangue, dor, faço sanguedor, enquanto penetro vejo minha imagem refletida na lâmina e não necessito de olhos para isso, então já não são reflexos, sou eu, imagem real, penetro.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Falta de Inspiração


Estou oco e cinza, após abusar dos meus instantes de inspiração, o que restou foi esse buraco, um vazio agonizante, sensação terrível, é como o silêncio, um inimigo invisível e sorrateiro, proporciona uma dor exorbitante e cada vez maior, o desespero vem logo após, pois você não sabe o que fazer para onde ir ou como agir, isso é a verdadeira agonia.

O que é preciso fazer? Sinceramente, só encontrei uma resposta para isso, você tem que desmanchar tudo o que fez e o que pensa, é como uma fênix renascida das cinzas, porém eu não sou capaz. É a solução de quem não quer perder aquilo que já tem e fecha a mão para o que há de vir, então a dor virou rotina.

Sou como uma taça de vinho transbordando, porém sou o oposto também, quando vêm com muita sede a mim, acabam por tomando todo o meu vinho, causando embriaguez delirante breve, logo depois do efeito tudo vira lixo acumulado.

Agora estou em uma constante morbidez e é, simultaneamente, entediante e prazerosa, pois consigo apreciar a beleza da morbidez e o conhecimento adquirido após é uma relevante recompensa. Não consigo entender a beleza das demais coisas, então talvez seja esse o meu lugar, conformar-me comiseravelmente ao meu destino, o que me resta é tirar proveito e isso eu deixarei subentendido.

Preciso recorrer ao imaterial metafísico e tentar extrair uma tradução material físico, visível! Não costumo arriscar, pois posso acabar perdendo, mas tenho que encher minha taça novamente e é preciso arriscar entrar no meu inconsciente oculto, roubá-lo e implorar para voltar, às vezes ele está de mau humor.

Perco-me na vastidão doentia da minha cabeça e o sorriso de lascívia vira minha principal característica. Ironia e espasmos. Contradições e covardia. Eu preciso fugir. Minha taça está cheia e a dor cessou. Essa é a segunda resposta. Estou te convidando, leitor, quer vir dançar?