Pecadores são os poetas, que de vasto calo, vão escrever sobre as suas dores, os seus amores... Poeta? Poeta finge, denigre, inflige, mente, inventa, hipnotiza, manipula... Poeta? Poeta sobrevive das suas desgraças mascaradas nas desgraças dos personagens... Poeta não exprime, imprime, subjetiva e vai falar de sentimento... Sentimento pra que? Pra preencher o verso, montar as estrofes para ganhar os troféus de aplausos e ganhar um romance, romance? Não, sexo... E, sim, os aplausos, porque poeta que é deveras depressivo, só consegue sobreviver da beleza das suas dores expressas nas rimas dos seus poemas... Não sei fazer rima, não sei montar as linhas com os metros, então não sinto dor?
Poeta versa as suas ideias pra comprar o pão e pagar os impostos... Não escrevo os meus sentimentos, porque eles não cabem no papel e nem o papel cabe neles, não me contento em uma parte pra representar o todo, porque sempre acaba ideal ou miserável demais. Se escrevo sobre ela, tenho que escrever sobre os meus dias risonhos, enfadonhos, moribundos, porque o que sinto é totalmente mutável e, depois do escrito, eterniza-se como um único sentimento e se torna imutável...
Pecado! Mentira, porque é parte pelo todo, porque há dias que me sinto depressivo, quase morto, aproximando-se do inerte, o zero absoluto, mas há os dias que a vida sorri pra mim e viver é a experiência mais fantástica que existe... Então varia, dependendo dos dias que eu faço força ou não para me levantar da cama, também varia nos dias que quem faz a força é ela... Então não se pode escrever sobre o amor falando somente de dor ou felicidade, porque há dias...
Nos dias que tu alimentas os meus vícios de longo fôlego, meu amor vira luxúria... Nos dias que tu me machucas, o amor vira dor... Nos dias que lutamos pelos sorrisos e rolamos na cama como se fôssemos eternos, o amor permanece amor. E, digo-te, quando permanece amor, vale a pena todos os dias de sangue.
Isso não se pode escrever no papel, porque isto aqui não é diário de bordo, é poesia, um manual de instruções, ensina-te a me montar pelo todo que é parte do meu eu...
Não sou poeta, sou um amador iniciante, e sempre o serei, que usa as mesmas ferramentas para fins diferentes. Eu não produzo, eu fagocito.




